Por Carolina Durães
25/01/2019 16:09:32 | Atualizada em

É tempo de perder o pudor

Hoje as mulheres do Piauí se surpreenderam com um artigo, publicado no Jornal Diário do Povo, com o seguinte título: “O pudor da mulher atrai o respeito do homem”, assinado pelo articulista José Maria Vasconcelos. O conteúdo do texto merece um olhar bem atento de todos nós. Entre vários posicionamentos machistas e misóginos, o articulista sugeriu o fechamento da delegacia da mulher e pontuou: "Fechem delegacias das mulheres, providenciem condutas de pudor feminino, vergonhas mais escondidas. Homens, comumente, só avançam se elas abrirem as pernas".

Vamos à realidade: em 2018, o Núcleo de Estatística e Análise Criminal da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí registrou 25 casos de feminicídio no estado. A quantidade equivale a 45,45% dos casos de crimes violentos letais e intencionais contra mulheres. Já as delegacias da mulher de Teresina registraram um total de 4.702 casos de ameaça, injúria ou violência física somente na capital. Em todo o Brasil, a cada dez minutos uma mulher é estuprada, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Mas, o que esses dados tem a ver com o artigo publicado no jornal piauiense? Mesmo com tantos avanços, ainda se acredita que os estupradores saem do nada e que o comportamento das mulheres é culpado pela impulsividade sexual dos homens. Não, os estupradores e homens violentos estão ao nosso lado, socialmente construídos em uma cultura machista. Precisamos romper esse ciclo.

Nós mulheres somos criadas desde cedo com uma série de regras. Isso pode, aquilo não pode. E, quando resolvemos transgredir, somos culpadas. E é exatamente isso que o texto sugere: se você não tem pudor, merece ser atacada. Vamos refletir sobre o quanto é grave as mulheres perderem a proteção da justiça, da polícia e da sociedade (sim, há muitos que concordam com esse tipo pensamento) porque romperam a barreira daquilo que é socialmente adequado.

O que esperar de uma sociedade conivente com esse tipo de pensamento? Mais estupro, mais feminicídios, mais violência e mais mulheres que se anulam para viver de acordo com as regras estabelecidas para naturalizar o machismo. Que a gente perca o medo e a vergonha. Não é tempo de resignação, mas sim de perder o pudor. Que a vergonha fique para os machistas que não conseguiram evoluir e chegar ao século 21, tempo de igualdade.

Conheça as histórias mais inspiradoras de mulheres como você, que conquistaram seu espaço de trabalho, com muita luta e amor pelo que fazem.