Por Carolina Durães
26/02/2019 12:48:45 | Atualizada em

Por que um documentário sobre menstruação ganhou o Oscar?

“Não acredito que um documentário sobre menstruação ganhou um Oscar!’. A diretora Rayka Zehtabchi não conseguiu esconder a surpresa na cerimônia do Oscar que aconteceu no último domingo, 24, e consagrou “Absorvendo o Tabu” (em inglês, Period. End of Sentence.), na categoria Melhor Documentário Curta-Metragem. O documentário, de fato, surpreende e é um convite para sair da bolha.

Logo nas primeiras cenas é possível entender o porquê do documentário ter levado a estatueta de ouro. É arrebatador, incômodo e provoca uma grande reflexão. Na Índia, 3 milhões de mulheres deixam de ir à escola quando estão menstruadas. Absurdo, não é? Mas não para por aí. O documentário mostra como a saúde da mulher é negligenciada. Ao menstruarem, elas são consideradas amaldiçoadas e, sem acesso a produtos de higiene, utilizam tecidos sujos ou folhas para impedir que o sangue se espalhe e torne a “doença” ( sim, lá a menstruação é tratada como doença) menos constrangedora. A consequência disso são os altos índices de infeção.

 

Os olhares envergonhados das mulheres falam muito. Elas mal conseguem pronunciar a palavra menstruação e são impedidas de frequentar os templos religiosos. Fui pesquisar mais sobre o tabu da menstruação no país e descobri que um fabricante de absorvente fez um estudo ( onde mulheres indianas usam absorventes – na comunidade mostrada no filme, o produto ainda não era utilizado) e comprovou que 75% delas ainda compram o produto embalado com jornal por causa da vergonha.

 

Vamos trazer essa realidade para o Brasil? Você sabia que a sua avó ou até mesmo a sua mãe provavelmente também comprava absorventes embalados em papeis para que ninguém percebesse? E, você, quantas vezes colocou a embalagem por baixo da blusa para ir ao banheiro no trabalho? Por que temos que esconder que estamos menstruadas? O que nos conecta com a Índia? O machismo, claro!

 

Quantas vezes nossa sanidade mental foi questionada no trabalho por estarmos de TPM? Uma mulher tem uma postura mais incisiva? Só pode ser TPM! Falou de forma mais contundente com o marido ou namorado? Tá “naqueles dias”, só pode. Por que ninguém questiona o comportamento da pessoa que motivou a mulher a ter uma postura mais agressiva?

 

Reparem que Rayka Zehtabchi ainda deu outro recado importante no palco da cerimônia que era transmitida para o mundo: “Não estou chorando porque estou menstruada ou coisa do tipo(…). Segue o questionamento: quantas vezes a sua sensibilidade foi relacionada à menstruação? Não estou aqui dizendo que os hormônios não interferem no corpo feminino, mas sim mostrando o quanto esse assunto é tabu para nós também e como é importante uma premiação como essa para refletirmos sobre o assunto. Reflexão essa tão bem representada pelas frases da escritora feminista Audre Lorde: “Não serei livre enquanto uma mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

 

 

 

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O DOCUMENTÁRIO

 

 

 

Dirigido por Rayka Zehtabchi, uma americana descendente de iranianos, e produzido pela americana Melissa Berton, o filme mostra uma vila rural em Delhi, na Índia, onde mulheres desconhecem a menstruação, que é tratada como doença ou algo pecaminoso e não têm acesso a absorventes. O doc retrata o processo de implantação de uma máquina que produz absorventes biodegradáveis e a mulheres passam a ter acesso não só ao produto de higiene, mas alcançam independência financeira com a venda a baixo custo.

 

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