Por Cinthia Lages
27/05/2019 13:13:12 | Atualizada em 27/05/2019 13:23:50

Meninas que não jogavam futebol

Na segunda  edição do ano, a  revista Forbes Brasil  trouxe na capa uma foto das mulheres mais poderosas do país. Uma dela é Marta, atacante da seleção brasileira e do Orlando Pride,eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo pela Fifa. A seleta lista com as 20 Mulheres Mais Poderosas do Brasil revela que o rumo para a equidade de gênero no mercado de trabalho é um caminho sem volta e provoca uma reflexão da luta feminina em muitas áreas, inclusive no esporte. Afinal, há 40 anos, elas sequer podiam jogar futebol!

 

 De 1941 a 1979, um decreto impediu o futebol feminino no Brasil. "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país", diz um trecho do  decreto-lei 3.199, artigo 54, de 14 de abril de 1941,aplicado no Brasil durante quatro décadas. Com o decreto em vigor, as atletas eram proibidas de participar de competições dentro do país e também não podiam apitar as partidas. Muitas mulheres continuaram jogando, mas parte dessa história não foi contada - e é exatament o objetivo do Museu do Impedimento, criado pelo  Google Arts & Culture (iniciativa sem fins lucrativos que faz parcerias com organizações culturais para exibir on-line a herança cultural do mundo). A  plataforma é uma experiência digital colaborativa, que convida os internautas a compartilhar documentos, vídeos, áudios e fotos sobre os anos de proibição do futebol feminino no Brasil. A plataforma recebe colaborações até o dia 23 de junho. e nesta segunda,27, estava no TTs do Twitter. Quem tiver histórias e personagens que no  período de validade do decreto porde participar ( veja vídeo !) 

Protagonista do vídeo de apresentação do Museu do Impedimento, Lea Campos é um exemplo de superação pelo amor do esporte. Em 1971, a  mineira tornou-se a primeira mulher árbitra de futebol do mundo. Ela apitou, no México, o primeiro amistoso mundial de futebol feminino, com a participação de seis equipes: México, Argentina, Inglaterra, Itália, Dinamarca e França. Para conseguir ter seu diploma reconhecido, em plena vigência do decreto, Léa chegou a conseguir audiência com o então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, um dos militares a governar o Brasil durante a ditadura. Contra as atletas, a posição intolerante do então presidente da CBD, João Havelange ( sim, ele já fazia mal ao futebol na década de 1970). “Enquanto eu for presidente da CDB, mulher não apita, porque eu não quero", bradava.

 

"O encontro foi marcado na Granja do Torto, um almoço. Pior fim de semana de toda a minha vida. Governo militar, pensei que o bicho ia pegar para mim. Fui com medo, mas fui. Durante a viagem, imaginava um milhão de coisas horríveis. Cheguei a Brasília, fui bem recebida, almocei com o presidente e saí de lá com uma carta de próprio punho autorizando a minha diplomação.

Quando voltei à CBD, era o dia da despedida do Pelé do futebol brasileiro: 18 de julho de 1971. A imprensa inteira no Rio. O Havelange não queria me receber, eu ouvindo ele mandar me dispensar. Acabei entrando, entreguei a carta e ele logo mandou reunir a imprensa. Fez um discurso: ‘É com muita honra que levo ao mundo a primeira árbitra de futebol profissional.’ O Havelange me coroou. Um dia cruzei com o Pelé num hotel e ele me disse que dividimos as manchetes do dia."

Em outro trecho do depoimento, Léa conta que era xingada por outras mulheres e despertava o ciúme das esposas dos jogadores que afirmavam que ela "queria conseguir marido". Atualmente, ela tem 72 anos de idade e mora nos Estados Unidos onde trabalha com produção de festas.

"Eu não estava preocupada com pioneirismo. Mas queria abrir essa porta, quebrar esse tabu. Toda vez que eu entrava em campo representava uma batalha vencida. Tive a oportunidade de viajar o país inteiro e viajar o mundo, apitando futebol. Minha maior felicidade naqueles anos era ouvir a torcida gritar: ‘Léa! Léa! Léa!’” declarou a árbitra aposentada  ao site hysteria.br.

Com informações :hysteriaeetc.br 

Para colaborar, acesse o link: https://www.museudoimpedimento.com/

Conheça as histórias mais inspiradoras de mulheres como você, que conquistaram seu espaço de trabalho, com muita luta e amor pelo que fazem.