Por Samária Andrade
20/02/2019 16:18:43 | Atualizada em 20/02/2019 16:26:23

ME TOO : como as mulheres são representadas (ou não) no jornalismo?

Incapaz de manter o jornal aberto. Assim Katherine Graham era vista pelo conselho do jornal The Washington Post – todo masculino. Para eles, Kay era apenas a esposa do diretor, que teve de assumir o cargo de direção não por méritos próprios, mas após o suicídio do marido - que, aliás, havia herdado a empresa do sogro. O filme The Post: a guerra secreta se passa em 1971, mas não poderia vir em hora mais adequada: quando as mulheres do cinema não guardam mais segredos sobre uma verdadeira guerra dos sexos. Assédio, opressão, desvalorização da mulher. Nunca esses temas estiveram tão em pauta. A hashtag #MeToo (eu também), criada para denunciar abusos contra a mulher, praticados por diretores e produtores de cinema, ganhou novo impulso em janeiro de 2018 na entrega do prêmio Globo de Ouro. A grande repercussão é reveladora da magnitude do problema.

Os abusos, como se sabe, não são apenas sexuais. Outros, mais sutis e naturalizados, continuam a ocorrer diariamente. Inspirada por outro movimento, o Guerrilla Girls, que trata da dificuldade de ser uma artista no mundo da arte e numa história da arte dominada por homens, Revestrés quer saber como ser uma jornalista no mundo do jornalismo, onde 64% dos jornalistas são mulheres, mas poucas ocupam cargos de direção.

Quando, no início dos anos 1990, Jacqueline Lima Dourado, hoje professora de Jornalismo e Coordenadora de Comunicação da Ufpi (Universidade Federal do Piauí), ocupou a função de editora-chefe no jornal O Dia, veículo impresso de Teresina, não era seu o nome que aparecia nessa função. “Eu figurava como membro do Conselho Editorial, ao lado do nome de quatro homens. Isso foi discutido muitas vezes, mas se achava que ‘não pegava bem’ uma mulher ser editora-chefe. Na prática eu era. Mas no expediente do jornal, não”. Num gesto simbólico de reparação, depois o jornal a homenageou como editora-chefe. E a título de justiça, diga-se, O Dia é o jornal piauiense com a maior quantidade de editoras ao longo de sua história: cinco jornalistas mulheres – inclusive atualmente. Ainda que seja em 67 anos, é significativo, se comparado aos demais jornais não só do Piauí, mas do Brasil e do mundo.

Para Jacqueline, o fato de haver poucas mulheres em espaços de tomada de decisão está diretamente ligado à menor quantidade de pautas que privilegiem a mulher ou os temas que interessam a esta. “Temos quantas mulheres deputadas, vereadoras, prefeitas, empresárias? Quantas mulheres foram eleitas presidente do Senado ou da Câmara Federal? Nenhuma! Enquanto estivermos contando nos dedos as mulheres que nos representam, este é um indício forte de que nossa representação é mínima. Quando ficar banal, teremos chances de ter mais fontes femininas e uma melhor representação no jornalismo”.

Uma pesquisa conduzida pelos professores Luís Felipe Miguel e Flávia Biroli, ambos de Ciências Políticas da UnB (Universidade de Brasília), concluiu que a representação do mundo feita pela mídia contribui para perpetuar a desigualdade entre homens e mulheres, uma vez que privilegia fontes masculinas, tornando alguns atores, no limite, invisíveis. Publicada no livro “Caleidoscópio Convexo: mulheres, política e mídia”, a pesquisa afirma que, além de reproduzirem e difundirem discursos, os meios de comunicação são também centrais no “reconhecimento das falas legítimas”, identificando quem é relevante ou não. Logo, quem aparece e o modo como essa pessoa aparece no jornalismo vai ser determinante na forma como ela será vista socialmente. Segundo a pesquisa, a mídia “tende a reforçar as posições e estereótipos vigentes, confirmando e contribuindo para a manutenção da sub-representação e marginalização das mulheres”.

 

Revista Revestrés 

 

Tentando entender o problema por dentro, a Revista Revestrés fez um levantamento para identificar como a mulher aparece na revista em suas 34 edições (ou seja, incluindo este número). Constatamos que, das 15 vezes em que a capa foi ocupada por uma pessoa, 12 foram homens e apenas 3 foram mulheres. Uma destas capas é dividida por duas mulheres. Em todas as capas com homens, eles estão sozinhos. Podemos contar a nosso favor que fizemos outras duas capas feministas: a edição 23 - #AgoraéQueSãoElas e a edição 15 – A força está com elas. Por outro lado, na edição 24, onde aparece uma mulher fotografada por José Medeiros, o destaque se dava ao fotógrafo e não à personagem.

Das entrevistas mais longas, que consideramos espaço privilegiado de fala, 26 vezes entrevistamos homens e apenas 8 vezes entrevistamos mulheres – menos de um terço dos entrevistados. Some-se esse dado ao anterior, quando verificamos que 12 vezes os homens viraram capa e apenas 3 vezes ocorreu o mesmo com as mulheres, concluímos que se tem muito mais chance de virar capa, em Revestrés, se você for um entrevistado homem.

A desigualdade continua em outras seções. Revestrés publicou artigos de 47 homens e de 28 mulheres. Entre os ensaios fotográficos, 27 foram de homens e 6 de mulheres. Um ensaio reuniu 5 fotógrafos diferentes – destes, 4 eram homens e apenas uma mulher. Na seção [email protected], quando escolhemos alguém para dar nome à edição, 24 das escolhas recaíram em nomes masculinos e apenas 10 mulheres tiveram essa chance. E quando procuramos fontes exclusivamente fora do Piauí, na Seção Réves Brasil, a desigualdade persiste: entrevistamos 21 homens e 8 mulheres.

“A mulher precisa fazer melhor, fazer dobrado e ainda sob o risco do preconceito da sexualidade, etnia, idade, estética”, diz Jacqueline. Cínthia Lages, jornalista da TV Meio Norte e que também já foi editora de jornal impresso, mas concluiu que não estava no lugar certo nem na hora certa, partilha do sentimento de que se exige mais da mulher: “Eu sempre fui, e espero continuar sendo, uma profissional exigente, sobretudo comigo mesma. Mas pago um preço alto. Sou mulher, separada e insisto em ter opinião própria. Ser mulher e jornalista demanda uma cobrança maior. A gente precisa se reinventar mais vezes!”. Jacqueline completa, chamando a atenção para os números da Revestrés: “Se a Revestrés está fazendo esse mea culpa, então está mais que na hora de tentar dar o exemplo. Vocês têm uma responsabilidade grande e podem dar uma contribuição maior ainda”.

 

Quando mais é menos

 

O grande número de mulheres no jornalismo não tem se traduzido em uma melhora significativa nesse quadro de desigualdade. Cínthia define como “espantosa” a relação entre quantidade de jornalistas mulheres nas redações e a desigualdade na cobertura. Ela acredita que isso se deve “a uma cultura machista, tão forte na imprensa, que termina por ‘contaminar’ as coberturas”.

A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em convênio com a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), ajuda a refletir sobre esse ponto. Segundo dados coletados em todos os estados do Brasil, as mulheres são de fato a maioria nas redações: 64%. Mas têm mais dificuldade de ascender aos postos de comando e recebem salários menores que os seus colegas homens, mesmo exercendo função idêntica: elas são a maioria em todas as faixas até 5 salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a 5 salários mínimos.

Esses números confirmam dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que, no último Relatório Global de Salário (2016-2017), diz que as mulheres recebem em média 30% menos que os homens em todas as profissões. O estudo investigou mais de cem países, inclusive o Brasil. Aqui, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, vinculado ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão) ainda verificou que, se a mulher é negra, recebe 40% do valor do salário de um homem branco.

No jornalismo, nem os maiores veículos de comunicação deixam de repetir essa desigualdade. Recentemente (janeiro de 2018) a jornalista Carrie Gracie, correspondente da BBC de Londres na China, anunciou sua demissão em decorrência da discriminação salarial entre homens e mulheres. Gracie trabalhava na BBC há 30 anos e, enquanto seus colegas homens na mesma função receberam no ano passado cerca de 230 mil libras, a jornalista recebeu 135 mil libras. Em carta tornada pública, Gracie fala de “uma indefensável brecha salarial entre homens e mulheres que fazem o mesmo trabalho”. Lá, a jornalista obteve a solidariedade dos colegas homens: quatro dos jornalistas mais bem pagos da emissora concordaram em reduzir seus salários.

Em Brasília o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal criou, há menos de um ano, o Coletivo de Mulheres Jornalistas que, entre outras atividades, fez um levantamento sobre as desigualdades de gênero no jornalismo no Brasil e identificou, além das diferenças salariais, a alta presença de assédio moral por parte de colegas e chefes diretos. 77,9% das mulheres relataram ter vivido essa experiência. Mais de 70% delas disseram que já deixaram de ser designadas para uma pauta pelo fato de serem mulheres.

 

Quem dá close é homem?

Sendo a visibilidade na mídia fator fundamental na produção de reconhecimento e capital simbólico, torna-se importante investigar como a mulher está aparecendo nos meios de comunicação. A pesquisa de Miguel e Biroli conclui: a mulher está sub-representada e é mais procurada como fonte em temas julgados femininos e/ou quando as matérias buscam personagens populares, ou seja, pessoas que não precisam ter uma competência específica. Isso contribui na manutenção da mulher em posição periférica.

Essa pesquisa acompanhou durante 10 meses, no período de um ano e meio, o noticiário de três telejornais e três revistas semanais nacionais. As revelações são preciosas: no noticiário político a imensa maioria dos personagens é de homens - as mulheres são apenas 12,6% nos telejornais e 9,6% nas revistas.

Quando mostra a distribuição de personagens femininas e masculinas por temas nos telejornais, a pesquisa deixa clara as editorias ou seções onde a mulher mais aparece: as chamadas fait-divers (matérias de curiosidades); cidades (onde são sobretudo consumidoras ou usuárias de serviços públicos); política brasileira (o que não significa que estejam bem representadas: são 14,4% das personagens enquanto os homens somam mais que o dobro: 30,7%) e, por fim, matérias de polícia, nas quais estão, com maior frequência, na posição de vítimas. Já os homens aparecem mais vezes nas editorias de política, esportes, internacional e polícia - além de vítima, como investigadores ou como perpetradores de violências.

Cínthia Lages cita um caso do jornalismo piauiense: quando a estudante Camila Abreu, 21 anos, foi assassinada por seu namorado, o capitão da Polícia Militar Alisson Watson, a imprensa local veiculou áudios de whastsapp onde Camila conversava com uma amiga e afirmava querer sair com outro rapaz. “Não entendi a necessidade de veiculação desse trecho especificamente”, aponta Cínthia, sobre um suposto uso intencional do áudio em questão. Ela completa: “após isso ocorrer, não foram poucos os comentários que vilanizavam a estudante. Não compreendo como este tipo de abordagem ajuda no entendimento da notícia e, ao contrário, quase sempre eles podem ser usados contra a vítima”.

 

Mulher e negra

 

A situação de sub-representação no jornalismo pode se agravar quando se associa cor e poder. A pesquisa de Miguel e Biroli mostra que os negros são 31,8% dos personagens populares e apenas 3% dos personagens vinculados ao poder executivo. Quando se cruza cor e gênero, essa situação se agudiza ainda mais.

A sub-representação da mulher negra dialoga com os dados do Perfil do Jornalista Brasileiro. Entre as 64% das mulheres jornalistas nas redações, 72% são brancas e apenas 5% negras (o restante se divide entre pardas, amarelas, indígena e outras).

A jornalista e performer Maria Luisa Mendes, negra, autora da pesquisa “O mito da mídia democrática: inserção e resistência da negritude na mídia branca” (Uespi – Universidade Estadual do Piauí), acredita que, no Brasil, ao mito da democracia racial se une o mito de uma democracia comunicacional, que até inclui os negros, mas em determinados papéis e espaços, servindo mais ao propósito de criar no imaginário “uma falsa ideia de negritude inserida na sociedade, enquanto, paradoxalmente, se conta nos dedos os repórteres, redatores, apresentadores, chefes de redações e fontes que são negros e negras”. Para a jornalista, quando se fala em negros nas redações geralmente se fala de homens negros e não de mulheres, refletindo uma “desigualdade entre as próprias pessoas em situação de opressão”.

Para nosso espanto, Revestrés colabora para a sub-representação da negra e do negro. Das 10 mulheres homenageadas com nome de edição, três eram negras. Dos 24 homens homenageados, cinco foram negros. Mas fizemos uma constatação mais grave: dentre todas as 15 capas com entrevistados, apenas 2 trouxeram negros. E na seguinte condição: a mulher negra divide a capa com uma mulher branca. Para o homem negro, fizemos uma sobrecapa com uma frase da entrevista, trazendo esse entrevistado apenas numa capa interna. Esse dado é revelador de que, mesmo quando se pensa estar atento a certos temas, o jornalismo pode repetir práticas que contribuem com a sub-representação de personagens historicamente excluídos.

Para Maria Luisa, as possibilidades da internet têm permitido maior espaço à produção de conteúdo onde mulheres negras aparecem com protagonismo, mas alerta: “não se pode ‘guetizar’ o espaço de comunicação da população negra como apenas na mídia alternativa”.

Nem tudo o que se faz no dia a dia do jornalismo é fruto de atitude calculada. Muito está ligado às rotinas produtivas. Mas, além de permitir a produção do jornalismo, essas rotinas ajudam a perpetuar a naturalização de hierarquias e o não questionamento aos acessos desiguais. As formas de socialização dos jornalistas nas redações também favorecem a repetição de processos vigentes. A naturalização de práticas diminui ou retira a visibilidade das desigualdades e formas de opressão. Tudo isso faz com que os meios de comunicação tanto reflitam como promovam a desigualdade.

E o que se pode fazer para tentar diminuir as desigualdades de gênero que prejudicam a mulher nas coberturas jornalísticas? Cínthia Lages sugere que falta mais ativismo por parte das próprias jornalistas, o que ela não vê ocorrer com homossexuais, pessoas trans e movimentos negros que, segundo a jornalista, “têm tido uma atuação mais eficiente no sentido de cobrar igualdade na cobertura, respeito na linguagem e mesmo uma patrulha pelo exercício do politicamente correto, dando visibilidade às pautas e inclusive acompanhando desdobramentos na polícia ou justiça e produzindo estatísticas”. A jornalista lembra que séculos de discriminações de toda ordem não serão vencidos por decreto e finaliza: “Vi uma camiseta onde estava escrito ‘feministas não são apenas mulheres’. Achei genial! Precisamos de mais homens feministas. Precisamos conquistá-los para que possamos ter um olhar mais humanizado sobre nossas causas”.

 

*Texto produzido pela Revista Revestrés 

 

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