Por Jornal Meio Norte
09/01/2019 18:51:17 | Atualizada em

Francimélia Nogueira tem vida dedicada as causas sociais

A assistente social e presidente do Centro de Reintegração Familiar e Incentivo à Adoção (Cria), Francimélia Nogueira, é uma piauiense natural de Inhuma e vem de uma família de nove irmãos. Filha de caminhoneiro e dona de casa, desde muito cedo Francimélia se engajou em causas sociais através de grupo de jovens da igreja, com o objetivo de ajudar os mais necessitados que precisavam de apoio e atenção especial.

O engajamento social foi decisivo para a escolha de qual profissão seguiria e na hora do vestibular optou e foi aprovado em Serviço Social, na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ainda nessa época, a sócia-fundadora do Cria conhece seu primeiro marido, com quem tem três filhos e começa então a construir sua vida, até que durante uma das visitas a abrigos de Teresina conhece Ana Carla, com 1 ano e 10 meses, bastante fragilizada e carente de afeto e proteção.

A empatia foi imediata e o amor foi surgindo dia após dia. Até que veio a decisão de adotar a menina. O processo de adoção da filha foi um divisor de água na vida de Francimélia, que logo após todo o processo, decidiu então, reunir alguns amigos e fundar o Cria, que tem como missão garantir às crianças e adolescentes institucionalizados o direito à convivência familiar e comunitária, e contribuir para a construção de uma nova cultura da adoção, atuando em parceria com a Vara da Infância e da Juventude e com instituições de acolhimento, visando uma nova cultura de adoção, promovendo discussão sobre o fato de crianças viverem em instituições de acolhimento sem ter seu direito à família respeitado.

Em entrevista ao Jornal Meio Norte, a presidente do Cria, revela que desde que foi fundada, há mais de oito anos, 80 crianças e adolescentes que passaram pela instituição, foram adotados. Emocionada, Francimélia Nogueira, conta ainda que seu envolvimento na vida de dezenas de meninos e meninas que esperam por um lar, foi essencial na ajuda para ultrapassar um dos momentos mais difíceis de sua vida, que foi a perda da sua filha Gabriela Nogueira Passos, há um ano.

Jornal Meio Norte: Qual sua trajetória até a chegada em Teresina?

Francimélia Nogueira: Venho de uma família de 9 irmãos, venho de Valença. Papai sempre foi caminhoneiro e mamãe dona de casa, então a cada ano mamãe paria um e foram todos dentro de casa, com parteira. Ela conta que quando eu nasci, minha avó deixava sempre um fósforo e uma vela próximo, porque achava que eu não ia vingar, já que eu era muito pequena. Meu pai sempre foi muito trabalhador e preocupado em proporcionar estudos para os filhos e nessa época em Inhuma só tinha até o ginásio, por isso ele veio para Teresina, inicialmente sozinho, tentar arrumar algum emprego, e depois foi trazendo os filhos ao pouco. Eu recordo que tinha uns 7 anos quando cheguei em Teresina e achei lindo ver a rua toda limpa, que era o asfalto e eu não conhecia e fomos crescendo, todos tivemos a oportunidade de estudar e nos formar.

JMN: Em que momento você começa o envolvimento em causas sociais?

FN: Eu sempre fui uma menina muito tímida, calada, nunca imaginei um dia chegar a situação de conceder uma entrevista, falar na televisão, na rádio, ministrar palestras, mas ainda na juventude me envolvi nos grupos de jovens da igreja católica e isso me ajudou muito, porque não só me empoderei mais e venci alguns bloqueios, mas também passei a ter uma visão social, uma visão do outro e refletir o que poderia fazer pelo outro. Então já nessa época do grupo Juventude de Vida Cristã (JVC), nós fazíamos trabalhos nos hospitais visitando os doentes que não recebiam visitas, fazia trabalhos nas penitenciárias, também com os cegos e com as crianças que ficavam no atual Lar das Crianças, mas na época se chamava Samapi (Sociedade de Amparo ao Menor Abandonado do Piauí), era apenas um casal que morava apenas um casal e as crianças e adolescentes, nós fazíamos reforço escolar e proporcionava passeios com esses meninos e meninas. Ainda nessa época, entrei na universidade e continuei participando da Pastoral Universitária, então eu sempre tive esse engajamento em causas sociais que foram muito importantes até mesmo na escolha do meu curso, porque eu sempre dizia que queria trabalhar com crianças, mas não gostava do ambiente hospitalar. Logo em seguida conheci meu primeiro esposo, com o qual tive três filhos: Daniel, Raquel e Gabriela. Após a saída da faculdade, fui me afastando da igreja. E após a partida de minha filha, me aproximei da doutrina espírita. E para mim tem sido consolador, acreditar que minha filha está sendo tratada e que terá outras oportunidades para completar sua evolução espiritual. Um dia nos reencontraremos.

JMN: Em que momento da sua vida você conhece sua filha adotiva?

FN: Assim que me formei, passei a trabalhar no serviço social penitenciário, passaram se os anos me separei, depois de um tempo me casei novamente e por conta desse segundo casamento, me mudei para São Paulo, depois sai um pouco da minha área e comecei a trabalhar com vendas e também tive a oportunidade de voltar a trabalhar em associações de funcionários de bancos, já que havia trabalhava em Teresina na APCEF/PI - (Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal), coordenando uma campanha de prevenção à Aids, com os funcionários do Banco Safra, em São Paulo. Depois voltei a Teresina e retomei meu trabalho na associação que havia trabalhado, mas depois fui me aproximando dos abrigos e com essa ida para os abrigos e levava algumas crianças para casa no fim de semana. No Natal de 2003, a Ana Carla, foi para nossa casa passar o período do Natal conosco, pequenininha, com muitos problemas de saúde e o primeiro sentimento que me veio foi o de compaixão, eu queria cuidar daquela criança, porque não queria que ela voltasse com aquela situação, até que conseguimos um atestado médico para fazer o tratamento de saúde dela e o amor foi crescendo e começamos a lutar e fazer de tudo para que ela ficasse com a gente, tanto que até chegar o dia da Ana Carla ficar definitivamente com a gente, nós ficávamos nos revezando no abrigo para que ela não ficasse sem nenhum de nós.

JMN: Qual a relação da Ana Carla com o fato de ter sido adotada?

FN: A Ana Carla hoje tem 17 anos e foi criada sempre sabendo que era uma filha adotada e ela sempre dizia que ainda quando criança que tinha três mães, a mamãe do céu, do coração e da barriga. Ela cresceu assim e de forma que nas escolas por onde ela passa, sempre participa de rodas de diálogo e grupos de discussão sobre adoção e diz também que vai querer adotar quando estiver na fase adulta.

JMN: E em que momento surge a ideia da fundação do Cria?

FN: A minha vida deu um salto após a adoção da Ana Carla, porque ela me abriu um caminho e eu sou muito grata por isso, porque a partir da presença dela na nossa casa, de percebemos mais claramente o que significa uma criança viver em um abrigo, comecei a motivar 15 amigos e fundamos então o Cria, que hoje tem oito anos de idade. O Cria tem sido uma luz na minha vida, claro que tem dias que a gente chora por não resolver uma determinada situação, tem dias que a gente briga, se zanga com as leis que não são cumpridas, mas tem muita alegria e satisfação de ver o brilho nos olhos das crianças quando chegam em alguma família, de ver a alegria dos pais e mães e isso é muito gratificante. O Cria nasceu bem pequeno e tem crescido muito, nos 6 anos nos sobrevivemos somente com recursos de pessoas que acreditam na causa, fazendo feijoada, shows beneficente, vendendo camisetas, realizando bazar. Já no 6º ano é que conseguimos uma parceria com o Governo do Estado e demos uma aliviada, mas independente desses convênios, nós sempre conseguimos trabalhar e tivemos a graça de contar com uma equipe vocacionada e que se apaixonam pela causa e fazem muito mais do que são pagas para fazer.

JMN: Como é para você perceber a dimensão que o Cria tomou a partir do seu engajamento com a causa?

FN: Eu agradeço muito a Deus a oportunidade de poder trabalhar em uma área que me faz muito feliz de dar a oportunidade de outras pessoas também serem felizes, eu olho para trás e lembro das dificuldades do início em conseguir as primeiras famílias e ver hoje que uma família traz outra, como o Cria cresceu, o fato da gente já ter tirado mais de 80 crianças que estavam em abrigos, passaram pelo Cria e hoje estão vivendo com famílias e se fosse só uma já era uma vitória muito grande, então a palavra que resume tudo isso é gratidão.

JMN: Acredita que sua fé e o trabalho em ajudar outras pessoas, lhe ajudou a passar pela perda da sua filha Gabriela com mais força?

FN: Não tenho nenhuma dúvida do quanto o Cria é importante para o meu equilíbrio emocional e para superação desses momentos mais difíceis que a vida nos apresenta, como a perda da Gabriela, que agora no dia 8 de junho, completará um ano da partida dela. Eu não deixei a partida dela me derrubar, eu prometi isso a ela, mesmo sendo de uma forma muito traumática, que é o suicídio. Hoje faço questão de falar do suicídio, de ser uma militante na prevenção. Passei a me aproximar de grupos e me integrar a um grupo de pais enlutados que perderam seus filhos para o suicídio e tem sido muito importante para mim e também participando do CVV, dando palestras e tentando alertando as pessoas a não se silenciarem e buscarem ajuda e não tenho dúvidas de que o trabalho no Cria e até mesmo agora nos grupos de prevenção ao suicídio tem me ajudado bastante a não desabar.

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