Por Jornal Meio Norte
09/01/2019 18:33:23 | Atualizada em 09/01/2019 19:02:30

Coronel Júlia: à frente do gerenciamento de crises no PI

A coronel Júlia Beatriz, 50 anos, foi a primeira policial militar do Piauí, iniciando a carreira aos 16 anos. Já são três décadas dedicadas a segurança pública e há 14 desenvolve o trabalho de comando do setor gerenciamento de crises da Polícia Militar do Piauí. O ambiente policial sempre fez parte da sua vida, já que sua trabalhava na polícia civil, portanto a carreira na área policial já estava no seu DNA.

Contudo, a princípio, a vontade da teresinense era ingressar na Aeronáutica, mas ao terminar o ginásio logo foi aberto o primeiro concurso público para policial feminino no do Piauí, em 1985. Inscrita e aprovada no certame, Júlia Beatriz começou a construir sua carreira com muito esforço, compromisso e determinação. O respeito e admiração da população e da própria corporação foram sendo conquistados com muita competência e maestria a cada ocorrência e caso em que atuava.

O apreço por lidar com os problemas do cotidiano, com as pessoas e boa comunicação levaram a militar para o comando de gerenciamento de crises, responsável por tratar de situações onde a vida humana é exposta a riscos, seja em decorrência de tentativas de suicídio, de homicídio, de sequestro, de atentados terroristas, protestos, manifestações e até mesmo de eventos naturais, como inundações, secas, vendavais entre outros. O setor é responsável, inclusive por colocar, a Polícia Militar do Piauí, como uma das referências no cenário nacional, mantendo êxito em suas operações.

Recentemente, a coronel Júlia Beatriz comandou a operação para desbloqueio do terminal de petróleo, em Teresina, durante a greve dos caminhoneiros que atingiu todo país durante 10 dias. Ela foi a responsável por dialogar com a categoria e realizar os acordos, além de promover a ordem e a promoção de uma manifestação pacifica, garantindo a segurança de todos os presentes até a saída de forma voluntária dos manifestantes sem a necessidade de força federal.

Em entrevista ao Jornal Meio Norte, a coronel revela que apesar de cada caso e situação ser bastante específica e ter suas particularidades, essa experiência foi uma das que mais lhe marcou, pois durante todos os dias de greve estava negociando com os caminhoneiros que protestavam em frente ao terminal e no dia da desocupação por meio de ordem judicial, se deparou com outra categoria – motoristas de aplicativos.

Durante uma rápida passagem pela política, a coronel Júlia Beatriz chegou a se candidatar a vice-prefeita de Teresina, na chapa do deputado Dr. Pessoa, pelo Partido da República (PR), nas eleições municipais de 2016 e fala sobre o que lhe motivou a ter aceitado participar do pleito, revelando ainda se tem pretensão de fazer carreira política ou não.

JMN: Como foi a sua chegada até a polícia? Era a carreira que deseja seguir?

CJ: Antigamente a polícia tinha um quadro para funcionário civil chamava de assemelhado, era um trabalho burocrático e desde que eu nasci cresci dentro desse ambiente, então eu tinha uma enorme admiração pela profissão. Eu também tinha um tio que era policial e eu sempre o visitava e acabei adquirindo essa admiração, mas a princípio eu não queria ser policial militar, queria ser da Aeronáutica, mas naquela época não tinha vaga para combatente mulher, somente administrativo. E nessa época eu terminei o científico, que é o ensino médio, e logo que eu terminei apareceu o primeiro concurso para mulher e ingressei logo na carreira policial.

JMN: Como é para a senhora desenvolver essa atividade?

CJ: É aquela história quando a gente se identifica primeiro com a profissão de policial militar e depois com esse trabalho que eu faço dentro da PM, não tem como ser gratificante. Minha mãe costuma brincar que se eu não fosse polícia eu seria polícia de novo porque eu não teria outra opção. E depois que comecei a realizar esse trabalho dentro do gerenciamento de crise e negociação aí sim eu passei a me identificar mais ainda, tanto que busco me especializar cada dia mais nessa área que foi onde terminei de me achar.

JMN: A senhora sofreu algum tipo de preconceito ou sentiu alguma dificuldade para conquistar respeito por ser uma policial mulher?

CJ: Sim, eu lembro que na época que comecei na polícia me sentia um verdadeiro ET, porque as pessoas me olhavam e pareciam que estavam vendo uma coisa de outro mundo, porque não tinha no Piauí policial mulher e na época só era eu e mais uma parceira, mas foi uma fase de adaptação, depois entrou na normalidade, lógico que tive que superar algumas barreiras, não só dentro da instituição, mas também com a sociedade de adquirir o respeito, mas enfrentei todas as barreiras com muito profissionalismo e esse respeito veio muito rápido, principalmente por parte da população, talvez dentro da instituição esse respeito tenha demorado mais do que fora dela.

JMN: Já são 33 anos de carreira policial e ao longo desse tempo, quais foram as maiores dificuldades e também o lado positivo da profissão?

CJ: No sentindo das dificuldades, acredito que todos os locais passam na realidade brasileira, principalmente no Piauí, por ser um estado que ainda precisa de muito recurso para que a gente possa chegar no estágio ideal da segurança pública, mas a gente ver que conseguimos avançar muito e hoje somos aplaudidos por ser o Estado do Nordeste com menor índice de violência e com o efetivo e a estrutura que temos hoje e termos esse reconhecimento é motivo para que a gente se considere verdadeiros heróis e é altamente gratificante. Além disso, o lado positivo é o crescimento pessoal, que nos fortalece e transforma a vida da gente em relação a ver a vida com outros olhos nessa área que eu faço principalmente. A gente ter a credibilidade de que o trabalho da gente funciona de verdade e adquirir essa sensibilidade para entender que a polícia militar não é só a parte truculenta e repreensiva.

JMN: Recentemente a senhora protagonizou mais um gerenciamento de crise durante a greve dos caminhoneiros no Piauí. Como foi lidar com essa situação?

CJ: Quem trabalha nesse tipo de comando, sabe que cada situação é uma situação, as pessoas mudam, os objetivos mudam e a gente aprende com cada uma delas. Primeiro a população se fecha porque eles não olham para gente como uma ajuda, eles olha para gente como uma repreensão e eu costumo usar a seguinte metáfora para explicar nosso trabalho com relação a crise: O nosso trabalho consiste em ficar em uma árvore de galhos finos, onde a gente tem que se equilibrar em cima de todos os galhos sem quebrar nenhum, ou seja, nós temos que trabalhar todos os lados da crise garantindo o direito de todos, então é difícil fazer com as pessoas entendem isso. Eu tenho que garantir o direito do manifestante que é legal e está na Constituição o direito à manifestação, mas lógico ela tem que ser pacífica e atender algumas regras, porque quando isso não acontece passa a prejudicar o direito do outro que está ao redor, por isso costumo trabalhar muito na cabeça das pessoas que estão manifestando que o apoio maior que eles têm que ter é do próprio povo, porque se eles não tiverem esse apoio eles não conseguem fortificar o movimento. Ninguém sabe muitas vezes o tempo que a gente levou até a chegada do momento da saída dos manifestantes do terminal de petróleo. Nós estivemos presentes desde o primeiro dia, conversando, explicando, mostrando a limitação de atender os direitos deles e quando chega o dia de fazer o cumprimento da ordem judicial quem ver só o momento que é mostrado naquele dia não sabe o que ocorreu nos dias anteriores, então só sabe criticar a ação da polícia, então é muito delicado, principalmente naquela situação, porque houve uma mudança de público. Nós vinhamos trabalhando com um público há 5 dias e de uma hora para outra a gente se depara com um público diferente, com uma outra demanda, pessoas com vários objetivos, então tivemos que nos readaptar, então foi muito interessante a experiência.

JMN: Ao longo desses 14 anos na área de gerenciamento de crise, existe algum caso que mais tenha lhe marcado?

CJ: Nessa área cada caso é um caso, mas esse caso dos caminhoneiros, por exemplo, foi uma experiência ímpar, porque nunca tinha acontecido da gente começar a negociar com alguém e na hora do cumprimento a gente se deparar com pessoas totalmente diferentes e não foi uma ou duas pessoas, mas o público todo. Mas eu gosto de emblemar sempre, por ser situações que me marcam muito, inclusive já fui criticada por alguns e elogiada por outros nesse sentindo, por ainda ser um tabu falar sobre isso com as pessoas e considero que temos que falar sim, que são as situações que a gente trabalha com ameaças de suicídio, essas situações marcam muito. Nós precisamos estar preparados para lidar com elas, então eu acho que esse tabu de falar achando que vai fomentar ele não deve existir, se fosse assim não poderiam noticiar a criminalidade, porque se não todo mundo seria bandido, não ia poder mostrar os assassinatos, se não todo mundo seria assassino, por isso considero que é preciso encontrar a forma de falar sobre suicídio e não silenciar, é preciso falar de forma educacional, preventiva, fazer com que as pessoas ao redor entendam a situação, então esse tipo de situação me marcam muito e aquelas que mais me satisfazem são aquelas em que a gente pode ajudar outras pessoas. Essa história de agir enquanto estado e não só quanto polícia nos dar um empoderamento de ajudar as pessoas e isso é muito gratificante.

JMN: Como foi a sua experiência na área da política? Tem pretensão de disputar um novo cargo?

CJ: Quando a gente vai completando o tempo de serviço na polícia tem que procurar alguma atividade que a gente possa continuar fazendo para não ficar parado e esse trabalho na polícia mexe muito com a área social e passa a conhecer diversas situações, então estava procurando uma área que eu me encaixasse e me completasse como a polícia me completa, então vi na política uma forma de poder da continuidade a esse trabalho social e entrei para ver se eu me encantaria com a situação, mas na realidade não me encantei. Tanto que não pretendo e não vislumbro mais me candidatar a nenhuma cargo na política. A única coisa que eu aprendi com a política é que eu adoro ser polícia, então vou continuar procurando dar o meu melhor até meu último momento dentro da polícia e o futuro a Deus pertence.

JMN: E no ambiente familiar e pessoal o que costuma fazer?

CJ: Quando costumo sair do quartel, apesar de os meus filhos dizerem que eu sou polícia 24 horas por dia, mas tenho meus hobby até por conta do trabalho é preciso ter resiliência, ou seja, você tem que repassar todo o seu dia e colocar tudo para fora porque se não você não consegue trabalhar no dia seguinte, porque a gente absolve muito os casos do dia a dia, então eu gosto de fazer artesanato. Nos meus horários de folha, tenho uma oficina na minha casa e quando tenho um tempo livre estou sempre lá, além disso gosto de sair com meus filhos, eles todos já são formados e saímos muito para nos divertir, temos uma relação mais de amigos do que de mãe e filhos . Quando costumo sair também não gosto de falar todo tempo de polícia até para poder arejar a mente.

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